Estávamos algures perto de Barstow, à beira do deserto,
quando as drogas começaram a fazer efeito. Lembro que dizer algo como; “Estou
meio tonto; acho melhor tu conduzires...” De repente fomos cercados por um
rugido terrível, o céu encheu-se de estática, ouvi frases perdidas no tempo e
vi espíritos medonhos que gritavam e desciam em
direcção ao nosso carro que ia a 180 km/h em direcção a Las Vegas. Ouvi uma voz a
gritar; “Santo Jesus! Quem são estes anormais ?”
Então o silêncio voltou, o meu colega, o advogado, tinha-se
posto completamente nu, virava se para mim e repetia constantemente; “Fodasse,
eu vi isso pinguim!”, olhou
me com a sua cara peculiar coberta com uns óculos de sol de um estilo
completamente ultrapassado, e riu-se. Respondi-lhe; “Oh… caga nisso” o pobre
bastardo não tinha percebido o que se tinha passado.
Breves momentos depois vimos um gafanhoto pedir boleia,
decidi ignora-lo (as estradas são um perigo nestes tempos) mas o meu colega
disse “Porra, vamos dar boleia a este pobre diabo”. Carreguei no travão a
fundo, as bebidas que estavam na parte de trás do carro espalharam-se pelo
couro dos sofás.
“Para onde vais?” Perguntei eu a aquele estranho insecto. “Para
Ugol. Vou para Ugol.” Respondeu-me. “Ugol?! Onde é isso?”, A minha estupidez era pior que a
minha curiosidade. “Apenas vai, eu explico-te pelo caminho” dizia enquanto
se molhava no assento traseiro. “Um tipo estranho pensei.”, Mais um daqueles
alucinados cujas drogas parecem surtir um efeito deveras peculiar.
O meu colega virou-se para trás, estava agora com uma
estranha escova de dentes na mão e gritava-lhe bem alto (pobre coitado, as
drogas fazem no ficar meio surdo) ;“QUE BIGODE É ESSE ? ÉS ALGUMA ESPÉCIE DE
ARTISTA ?” , o pelicano respondeu-lhe algo que não percebi. Nisto uma grande
pedaço de pudim apareceu no meio da estrada, os meus olhos saíram das
órbitas, ao mesmo tempo que exclamava ;“RAIOS, PORQUE DIABO ELES DEIXAM ESTAS
MERDAS NO MEIO DA ESTRADA”, o réptil que se sentava na parte trás do nosso
transport riu-se “Ahahah, estamos perto”.
Tentei desviar-me, mas carro guinou de forma impressionante, parecia um cavalo em
fúria no calor da batalha. Vi o meu colega a ser engolido por um enorme sapo
azul. Senti o meu corpo voar para a frente. A última coisa ouvi foi; “Obrigado
pela boleia, cheguei ao meu destino”.
Levantei-me horas depois com uma ligeira dor de cabeça, olhei
para o meu veiculo destruído. Virei me para o advogado
e perguntei-lhe, “Como disse que se chamava aquele tipo ?”, ele retirou os
óculos da cara - parecia que tinha passado por um mau bocado - dirigiu-se a mim e disse; “Não ouviste ? Ele
disse que se chamava Salvador Dalí.”

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